![]() Mala velha... Por Águida Hettwer/ Narração poética: Marcos Sergio T.Lopes
No final da Rua Salgado
Aranha, as ferrugens do portão denunciavam o abandono. Imóvel adquirido
com sacrifício e esforço pelo avô João. Agora era de sua propriedade. Nem
disfarçava a ansiedade, pois o casarão em seu interior, guardava
recordações de sua infância.
Ainda ressoam vozes, risos e
histórias contadas entre os cômodos da antiga casa. Memória aguçada tinha
o ancião de cabelos prateados. Lembrara da riqueza de detalhes, as letras
deitadas no papel amarelado, sob a mira da tênue luz que vinha do
escritório, onde o avô passava maior parte do tempo. Uma velha mala no
fundo do armário, como se guardasse segredos em seu zíper. Lenços, cartas,
pequenos mimos e um caderno de capa de couro, onde o tempo foi zeloso com
ele. Nas páginas do diário, emoções descritas ali, em conta gotas.
Anotações provavelmente escritas pela avó Adélia, antes da doença lhe
consumir a alegria, onde deixara praticamente cega. Descrevia de
como se sentia feliz aos cuidados do João, pelo carinho e atenção que
sempre lhe prestara. Quando lhe ajudava a atravessar a rua, segurava
firmemente sua mão. As advertências para tomar a medicação em horários
certos. E a paciência com que tratava o jardim, cultuando as flores das
quais mais gostava. Certamente
Adélia sabia que seus dias estavam contados, e preparava com cuidado sua
partida. Sofria em silêncio compartilhado, apenas com as letras. Nada mais
lhe restara de importante nos últimos tempos, a não ser contemplar a face
de João enquanto adormecia. Agora entendera o porquê do avô
João, passar tantas horas dedicadas à leitura. Escrito no prefácio do
diário; João, meu eterno amor, eu
sempre te amarei! -Com amor e
carinho...
Adélia.
Em uma manhã de setembro de
1965.
19.09.2009 Outros textos: www.aguidahettwer.recantodasletras.com.br
Arte, formatação e texto: Águida Hettwer Ano 2009
Narração poética: Marcos Sergio T. Lopes |