Oculto no espelho
 
Marlene Constantino
 
- Esse Eu - 
o crucificado, o ferido, o maltratado,
perdido em tantas lamúrias.
Eu - Sem esteio, sem meio,
engolido pelo vácuo do espelho.
Ruminante de infortúnios,
coçando chagas,
destilando ódio, vomitando impropérios,
engasgado com o próprio fel.
Eu - sacro-santo altar da própria crença,
maculando o verdadeiro amor.
O santo atolado
 num egocentrismo sem rendição.
Um 'Eu' em desmedido sacrilégio,
em arguição, o dedo em riste,
 medonho acusador condenado à própria sorte.
'Eu' quem és tu atrás do véu?
Não te reconheço em desmedida distorção.
Acusa-me mais uma vez,
 oh poço das antigas mágoas ?!
Acusa-me  mais uma vez:
- "o útero maldito dessas profanas águas" !
 
17/04/2011
 
 
 
 
 
 
 
 
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