DIGA A ALGUÉM
DE SETENTA E CINCO CICATRIZES
Marlene Constantino
para Edmir Carvalho Bezerra - autor de
"O quase arco-íris é fatal"
*
Ainda que a cegueira tome conta dos olhos,
 que uma terceira visão tenha verde luz..
Que  venda ele muitos pasteis de farinha,
mas que sejam ainda recheados de sonhos.
 
Que não veja apenas a liberdade como um passado,
mas que seja ele ainda capaz de tocar
 nas asas de um corcel, viajar nele rumo ao sol..
 
Que suas setenta e cinco cicatrizes,
sejam como as fendas do seu chão rachado,
mas que faça ainda chover,
 porque nele esconde um jardim..
 
Tirar-lhe as sandalias roídas dos pés
seria como arrancar-lhe a memória.
Nada pode-se fazer, a não ser aprender com ele
 a direção do arco-íris..
 
Mirar acima do seu chão, olhar o azul do céu,
 ainda que se vão as primaveras,
nunca deixar de sonhar !!
*

Música : Eloi Braga - Ao cair da tarde

 

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